quinta-feira, 16 de junho de 2005

Que pintas !

Podia começar por dizer que sou um gaja com pinta, com muita pinta mesmo. Mas não. A voz da consciência chama-me à razão e alerta-me para a verdade: uma trintona igual à maioria. No entanto, apesar do glamour não ser o meu reflexo, as pintas fazem parte de mim. Pés, pernas, coxas, nádegas, barriga, costas, braços, faces, testão e outros locais mais recônditos do meu corpo foram, ao longo dos anos, invadidos por pintas. Tipo praga. Grandes, pequenas, salientes, claras, escuras, redondas e...disformes, aqui há pontinhos para todos os gostos.
Resolvi, finalmente, fazer uma visita ao dermatologista para ver o estado das coisas, uma vez que, há quatro anos, numa dessas consultas e, após retirar uma bola preta das costas, soube que era um Melanoma. Sim. Esse nome pomposo que no Verão se ouve falar nos telejornais e que não é mais que um cancro de pele. Por sorte, o sinal que me foi retirado estava apenas a acordar para a destruição, e com uma segunda intervenção cirúrgica as células malignas desamparam-me a loja. Na realidade, a palavra Cancro não chegou a fazer parte do meu léxico. A verdade é que passados todos estes anos euzinha nunca mais pisei o consultório. Burra, otária, estúpida e inconsciente são os nomes que melhor me acentam. Mas como típica portuguesa que sou, na altura do aperto e ao segundo toque lá fui a correr para me acudirem. Notei que me crescia um monstro no braço. No início era uma coisita que parecia um cravo- que há muitos anos viviam nos dedos das minhas mãos- mas com o andar da carruagem a coisa cresceu e graduou-se em "objecto disforme, de aspecto duvidoso e não identificado". Lá arranjei coragem e fui saber a opinião de quem percebe destas coisas. A consulta foi ridícula. O Adasmator que habita o meu braço é, ao que parece, uma "cena" inofensiva. Descansei. Quando me preparava para abandonar o navio, eis que a senhora diz: "onde é que pensa que vai? Vá dispa-se, quero ver esse corpinho..." Por momentos achei que estava a ser alvo de assédio, mas não. Lá cedi à pressão. A profissional de saúde foi buscar o último grito da maquinaria de detecção de melanomas e, pinta a pinta, analisou-me toda. Resultado: havia dois sinais do demo. "Menina Lídia, vamos ter que os tirar já. Não estão muito maus, mas tendo em conta os antecedentes..." Uma semana mais tarde lá estava eu pronta para a faca. Nas costas ficaram 4 pontitos e na perna 3. Agora esses bocados de mim estão no laboratório do Hospital Pulido Valente em análise.
Façam o rastreio. E não são só os meninos e meninas com peles ridiculamente brancas (como eu) que necessitam protecção. 70% dos melanomas nem sequer se manifestam em sinais, são na superfície da pele e surgem daqueles escaldões que orgulhosamente exibimos nas esplanadas e locais de emprego. Um melanoma é uma estirpe de cancro galopante. Podemos partir para parte incerta ou ir dar um "olá" ao menino Jesus em MESES!!! Por isso, previnam-se. É a melhor cura.

1 comentário:

Anónimo disse...

Ainda bem que voltou o teu entusiasmo pelas "vírgulas, as aspas, os travessões e os complementos directo e indirecto", já tinha saudades.

Contra a má pinta, sempre alerta!